domingo, 19 de fevereiro de 2012

Nada é irreparável.




                                           Foto tirada da internete, não é mencionado o autor.


 Essa é uma verdade ignorada na maioria das vezes, geralmente por causa do orgulho, da arrogância, da ignorância. Curioso notar, se não triste, quantas belas amizades, quantas famílias, quantos namoros e casamentos se perderam por se achar que o estado de coisas era irreparável. Quanta beleza uma pessoa perde por não dar a si mesma a oportunidade de voltar atrás no que disse, no que fez, de engolir o orgulho e de perdoar. Perdoar aos outros, e principalmente, perdoar a si mesma.

Ás vezes um desentendimento que poderia ter sido apenas um incidente, assume proporções desastrosas. Uma frase atravessada aqui, uma palavra mal dita ali, um entendimento equivocado, e pronto, o fermento da discórdia faz a massa crescer. Paradoxalmente, quando a briga é entre pessoas que se amam o processo costuma ser mais explosivo, isto porque, nada é mais violento que o amor, nada. Quando a massa atinge o ponto crítico, rapidamente os beligerantes armam seus espíritos e um amplo sistema de autodefesa entra em ação. 


De fato, algumas pessoas não se dão conta de que sofrem de certo mal, certa raiva seletiva; o mal de querer tomar partido em tudo. Essas pessoas cultuam intrinsecamente a fraqueza. Se virem um africano lutando com um alemão torcem pelo africano. Se virem um pobre brigando com um rico, torcem pelo pobre. Seu critério não é a justiça do combate, mas sim um pré-conceito qualquer fruto dessa raiva seletiva.   Não sabem dos pormenores, do moto gerador do banzé; não sabem de nada, e tomam partido ao sabor das fofocas. Esses atiçadores raivosos e seletivos transmutam-se velozmente em apedrejadores e linchadores, e não tarda muito a passarem a lutar entre si, disputando o primeiro copo de sangue.   Eu realmente torço para que os fracos da Terra se levantem, e se tornem dignos, que abram mão dos famosos ganhos secundários que se pode ter na posição de vítima.


Manter a afirmação de que as coisas se quebram uma única vez é fechar as portas das possibilidades de mútua compreensão. Às vezes, se confunde alguns amassados com uma perda total e mete-se os pés pelas mãos. Não é perda total, é apenas um pequeno amassado, uma Ferrari com um amassadinho no pára-lama, não dá pra jogar ela fora por causa disso. Largue as pedras, recomece, ouça a voz que perdoa.

Cordiais saudações
Fabrício Santiago

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Lejos de los Ojos, Lejos Del Corazón!





                                            Cadeira vazia, não sei quem é o autor da foto




 “A gente sempre destrói aquilo que mais ama, seja em campo aberto ou numa emboscada.” Oscar Wilde.


Meus vícios são café e preguiça, antes também era o cigarro, mas agora parei, ou quase. E por saber que desses vícios poderei servir-me apenas umas 75 mil vezes em toda a minha vida, tornei-me frugal com eles.

Hoje no escritório um ingênuo gole de café deixou no fim o gosto amargo das minhas caminhadas solitárias, à noite, a esmo, pelo sacro-santo império Tijucano ou pelo bairro dos vampiros, Santa Teresa; Deu uma preguiça danada, e me deixei transportar ao vozerio de um bar bem longe daqui, onde essa peripécia aconteceu. Persistiu o som de uma voz, em meio a esse vozerio, e o perfume dela, quase atrapalhava a respiração. Ver suas fotos agora é coisa que me faz sentir vulnerável.


Acho que meio, Scarlet O'hara mode on, ela jamais voltaria passar por “aquilo” novamente, isto é, por uma relação indefinida.  Há um limite para tudo, até onde ir sendo amiga, mas amiga é apenas um cômodo sem janelas em uma casa.. E comecei a criar monstros em um lago onde sequer havia peixes.

Seria preciso o concurso de inúmeras circunstâncias para que eu pudesse ser promovido a algo além de amigo, na verdade um rosário de empecilhos, morais, legais etc. Fiquei pensando no tanto que fui idiota em acreditar nessa história.

Sabe fase? Eu as tenho. Tô numa fase nebulosa agora. Ainda não sei qual é, mas isso inclui outras micro-fases, como a de reformar coisas velhas. “Olha só a cadeira que achei no lixo! Pintei e lixei com a furadeira. Depois achei que faltava alguma coisa, e dei uma envelhecida com óleo queimado; a intenção era fazê-la parecer antiga, como que vinda dalgum rincão de Itabirito.

Essa micro-fase também inclui fazer parecer com que certas coisas pertençam a certos lugares, de onde, de fato, não são. Talvez seja um modo de crer insanamente, que um dia todas as coisas voltarão a seus lugares.

 Nós humanos tentamos organizar os sentimentos, separamos uns dos outros, e como diria Renato Russo separamos até “entulho e o que é virtude”. Vivemos sobre os escombros deste gigante, que é o caos, e cuja sorte aniquilará a todos e nos arrastará, irremediavelmente, a um telúrico destino.  Mas lamentavelmente não sabemos o que vem depois do caos. Aquiles sabia o que viria depois de Heitor. Mas a maioria de nós, sequer imagina o que virá depois do Rubicon.

Ontem à noite pareceu que alguma coisa se quebrou definitivamente em nossa “amizade”. Quanto mais eu falava menos era senhor das minhas palavras. Fiz uma pergunta, e nada, contudo foi respondido.   Provavelmente havia nessa omissão o dedo d’alguma figurinha frágil, afetada de sensibilice, fazendo de tudo para expor nossas dessemelhanças. Malditos empata-fodas! Acham que eu deveria ser mais altruísta, que deveria lidar com ela, sem querer levá-la para cama, e ai sim, ser considerado, por eles - ora vejam!, um adulto! E cada vez que conversam entre si, fazem de mim, provavelmente, vítima de uma nova conspiração.

Preferiria tê-la visto perturbada, rubra, furiosa, abrindo a geladeira e entornado um copo de vinho barato nas goelas, então ela poderia começar a falar alto e depressa e eu assistiria de camarote toda sua dignidade desaparecer. Ela diria coisas sem nexo que se esforçaria por tornar ponderáveis, isso me daria “uma ponte de ouro” pra fora dali, uma oportunidade de uma saída honrosa, isto é, do bom e velho jeito, batendo a porta atrás de mim.  Mil vezes um final passional a essa mediocridade de como a coisa se deu. 

Eu tô fazendo minha parte. E toda vez que agito um sentimento, tento entender seu nome. Remexo na memória, na história, tentando lembrar-me de como tudo começou. Amiga ou sei-lá-o-que? Jamais saberei. Pra mim é muito estranha a idéia de poder ligar ou desligar o amor. Afinal de contas, como evitar o nó na garganta? 

Cordiais Saudações
Fabrício Santiago

PS: Quem buscar na realidade coincidências com o texto se verá cercado de anormalidades.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Barão de Juparanã

                                          Estação ferroviária de Barão de Juparanã

Há milênios a passagem silente
do Rio Paraíba
só conhece a voz da água.
Como um rastro perscrutado ao cair do dia
até a outra margem, que é o infinito
onde o crepúsculo desdenha do progresso
e enche a pracinha de falas.

Por seu vulto ganham nova pressa
os passos das mulheres
que herdaram sapiência de o pressentir
na infalível destreza dos seus braços

Barão de Juparanã teu nome tá trocado, pois de fato és Desengano
pois desafias a premonição das estrelas
da bondade dos amuletos,
de deus, e dos deuses.

É um lugarejo magoado.
Como uma canoa plantada no colo da praia
a espera de um impulso final
que só pode ser dado pelos corações das crianças
que por ai passaram deixando anônimas pegadas

Um dia não mais sonharemos com
com águas turvas.
De lá do horizonte, do hemisfério dos cafezais
esperanças abraçarão a recurva do rio
porque a Maria-fumaça
terá voltado.

Nós te aguardamos São Jorge
protetor lunar, vestido de guerreiro
e ao brilho das armas que revelas.
Pois sem ti Barão de Juparanã seria apenas Desengano

Cordiais saudações
Fabrício Santiago

OS: Esse acanhado poema é meu humilde presente de aniversário a Barão de Juparanã, distrito de Valença. Dedico também aos adultos de hoje que tiveram sorte de viver uma infância feliz nesse lugar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Generalizar ou Radicalizar?


                                          Atena, Hera e Afrodite, afrontadas por Éris, a Discórdia.

Somos todos adultos e sabemos que o mundo não é preto-no-branco (sem racismo, por favor. rsrs).

Tudo é relativo, mas numa comunidade internética , nem sempre temos tempo para "elencar" (boa noite, advogados. rsrs) todas os matizes de uma argumentação.

Sabemos que ao agir assim podemos desagradar alguém, porém, mesmo eu que sou um "negociador" por profissão e consigo ver com facilidade os dois lados, posso incorrer no erro de usar a generalização ou radicalização, principalmente em debates mais acalorados, mas a verdade é que quando generalizamos ou radicalizamos isso não ajuda a enfatizar o que a gente quer dizer. Infelizmente como eu sempre digo; “ás vezes a sabedoria chega atrasada”.  Analogicamente à cavalaria nos filmes de faroeste a sabedoria ainda pode ser aproveitada mesmo chegando atrasada, mesmo quando os debates estão póstumos. Sabedoria tarda, mas não falha.  Ela serve até como exemplo para as pessoas, e preveni-las antes de se acharem no o direito de também ir mais além nos debates.

Argumentar com ponderação é ótimo, mas se livrar de ressentimentos  também é. Há alguns anos passados eu havia publicado no meu falecido blog o “Fogo na Jaca”, deletado pelo Google, umas radicalizações onde chamei Che Guevara e Fidel Castro de "assassinos comunistas" e ao mesmo tempo dei parabéns ao coronel Ubiratan pelo massacre no Carandiru. Sabendo que não é muito correto e nem justo, também sei que algumas pessoas gostam de bandido e comunista. Eu não deveria ter escrito aquelas radicalizações. Mas todo mal tem sua faceta positiva, a partir do fato galguei um patamar acima em relação a pensamentos e opiniões.  Radicalizei, generalizei. Com isso devo ter angariado antipatias, que a meu ver também não são justas, pois excluem a possibilidade do entendimento. Essas coisas são o pomo da discórdia invariavelmente sempre. 

Não quero debater e expor a minha opinião bancando ser o "mister sabe-tudo" querendo agradar ou seduzir todo mundo com o fim de arregimentar adesões desencontradas. Não isso não. É possível se debater sem ser radical e ter que generalizar. Eu não sei falar jargões jurídicos e não é minha proposta me ater a minúcias legalistas.  Eu sou do tempo em que as pessoas desavindas entre si abriam mão de seus orgulhos em prol da análise tranqüila dos fatos na busca de um caminho á sombra para ambos.

Se o objetivo de um site é reunir o grupo heterogêneo de pessoas, até mesmo com alguns anta-gonistas (sic), acho que é dever de todos agir pela harmonização, já que os antagonistas, especialmente dentro do grupo, são os que têm mais chance de construir uma grande amizade, haja vista, como diziam os antigos, “a guerra gera harmonia”.

Bom, meus amigos, como eu havia prometido não escrever mais textos compridos, termino essa acanhada epístola.   Agradeço aos que me apoiaram. Também agradeço os que não me apoiaram, e aos que ficaram omissos. Desejo a todos um 2012 livre de generalizações e radicalismos.

Cordiais saudações
Fabrício Santiago


PS: O próximo capitulo de Autópsia de uma Corneada sairá em breve, desta vez com a maravilhosa colaboração de uma poetisa convidada.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Autópsia de uma Corneada VII



                                           O último Helicóptero de Saigon


- E como vcs reagiram dispersão dos sábios de Karnak e a profanação do templo?”

- Aceitamo-la simplesmente, como aceitamos também, a destruição de Tróia e o fechamento da Escola Eclética de Alexandria.  – Secamente, emendando na resposta, Cristiano Ronaldo deu prosseguimento.

- Eu nunca recebi concurso fraterno, meu amigo, nem palavra esclarecedora, sempre fui discreto, na minha. Mas o isolamento trouxe algumas vantagens, dentre elas, por exemplo: não ter ansiedade antecipatória. Para mim os medos da vida são nada, para mim tudo não passa de um peido na tempestade. O lado ruim nisso tudo, poderia dizer, é o fato d’ eu viver nas trevas, encarnação após encarnação. Sou uma alma que desperta e dorme, que desperta e dorme como num sonho que ajuda a digerir mil e uma circunstâncias. Vida após vida fixo a atenção ora num ponto ora noutro, para mim os minutos são eternidades, embora tenham um número.

Cristiano Ronaldo voltou seu olhar sarcástico para o Morro da Chacrinha donde subia fumaça das cozinhas, e apresentou a Bruno um copo cheio de Conhaque cuja borda não conseguia ele tocar com seus lábios trementes de medo, “relaxa, filhão” disse em tom de deboche antes de retomar sua narrativa. 

- Houve determinadas épocas em que bebi o café dos existencialistas. Hedonismo, e esse tipo de coisa.  Depois provei o absinto dos satanistas positivistas, Aquela era uma galera chapa quente! Com eles aprendi a seduzir, agredir, manipular, o básico, né? A seguir cismei que queria ser jornalista. Entrei pra escola dos escritores luciferinos. Escrevi tanta baboseira, tanta coisa inútil e sem sentido como passar mostarda num pingüim.  Por fim inalei o ópio da guerra. Ah, Hitler, aquele maldito caçador de vampiros! Tentei me vingar, quase comendo a Eva Braun, aquela cadelinha do satã, mas isso é outra história.  -

Cristiano Ronaldo, bastante satisfeito com sua pessoinha, derramou em torno de si um olhar vaidoso, como se sentisse, mais uma vez, os peitos de Eva Braun vibrando embaixo do corselet; e os ventos de Berchtesgaden trazendo à tona as condições de existência que vivia quando era feliz. Naquele episódio, enquanto estavam deitados no feno cheiroso, lembrou-se ainda do dia, em julho de 1941, em que no oriente, faltava apenas um passo para a perda de Moscou; outra mulher tomada por vingança. Lembrou-se das palavras de Friedrich Paulus, ao violarem a fronteira da Rússia, de como ele brandiu o sabre e gritou; e como que levado pela maré das marcas daquela dor incurável deixou escapar dos lábios a odiosa frase de Paulus:

- Eis-nos nas Estepes da Ásia!

- Como? – Perguntou Bruno, perplexo por aquilo que não fazia sentido, afinal o brado vinha atrelado ao pensamento de Cristiano Ronaldo, em que ele estava desconectado. 

- Nada não, deixa pra lá. Na vida é tudo fumo e vento, nada é mais fugaz do que a glória!

Mergulhou suas recordações em nada que tinha a ver com que deveria ser sua preocupação no momento. Mas um sentimento muito complexo adveio daquelas lembranças, como nos Gulags da Sibéria, como daquela Moscou toda convulsa e que seria abandonada. Reteve as palavras e mudou o rumo da prosa.

 - Bruno, vc sabe do que eu mais gosto de fazer quando não estou cortando e empilhando pedras? 

- Não.

- Pesquisar sobre os homens das cavernas, Menino de Lapedo, dinossauros, esse tipo de coisa. 

- Sei. Mas se essa hipótese de vida após a vida está correta pq vc não esqueceu e não superou os fatos ao longo de tantas encarnações? 

- Bruno, uma vela não reacende como uma vela nova, mas reacende onde se apagou. - Uma pausa para um gole e Cristiano Ronaldo pergunta.
- Dize-me tu, Bruno, do que te vanglorias?

- Eu? De nada. A como diria Augusto dos Anjos, minha vida não foi nenhum romance

- Pois é Bruno, vc é mesmo medíocre, mas tem uma coisa esquisita.

- O que? 

- A sorte nos reuniu de uma maneira estranha.

- Bota estranha nisso!

- Deixa continuar contando minha história, senão me perco e daí é foda encontrar o fio da meada, ainda mais olhando pra essa tua cara de babaca. Bom, vamos lá, depois de buscar Nekhbet, leia-se Eliza, por toda parte, talvez tendo sido ela mesma Eva Braun, finalmente a reencontrei na Espanha.  Ai tivemos uma filha. Aquela menina adentrou em planos desconhecidos da minha mentalidade, me mostrou o belo e as coisas belas; há entardeceres em que posso escutar sua voz. Ela foi uma ponte que me levou para além dos problemas e das proibições. Ninguém faz uma ponte se ninguém vai atravessar, não é meu amigo? Ou vc pensa que as pessoas entram e saem das nossas vidas sem que haja um fato gerador? De onde vc acha que vem a teia das nossas relações sociais? Se vc vir uma flecha no ar, não pensará que ela surgiu de um arco? O arco que impulsiona as pessoas é o karma. Mas vc é um débil mental, Bruno, que não vê amplamente o estado de coisas, mas sim seus efeitos, já que, no geral, para vc, tudo são efeitos. 

- Onde... Onde está a menina? – Questionou Bruno sequioso de curiosidade, mas aquela pergunta pareceu conter uma armadilha perigosa demais e Cristiano Ronaldo preferiu ser lacônico. 

- Numa lápide em Sevilha.

- Como assim?

- Esta morta, meu amigo, dormindo eternamente nas cores do outono. Eu a venero como a uma santa desde então, em virtude de seu fim trágico, mas isso é uma outra história.

Então Cristiano Ronaldo apontou a Parabelum 9mm para a cabeça de Bruno, que assustado, descorou mais ainda. Infelizmente para Cristiano Ronaldo, o bom senso nunca foi mais ágil que o senso de humor e enquanto puxava o gatilho disse, “volta para o mar oferenda!”; e com uma caroçada de Hollow Point no meio das idéias mandou Bruno para o colo do capeta.

Houve diligências por parte da polícia aqui, lá, acolá, nos ermos, nos chapadões, mas o corpo de Bruno jamais foi encontrado o que causou um cenário aterrador a sociedade tijucana. Mas com o tempo os tijucanos deixaram de alardear o fato e apenas voltaram suas atenções para outros assuntos mais polêmicos e chocantes.

Pois é, meus amigos, tomar uma mulher por vingança, se apaixonar, e depois se agarrar a ela como se fosse o último helicóptero de Saigon pode causar terríveis conseqüências, adverte o Ministério da Saúde.

Continuará...
Cordiais saudações
Fabrício Santiago

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