O último Helicóptero de Saigon
- E como vcs reagiram dispersão dos sábios de Karnak e a profanação do templo?”
- Aceitamo-la simplesmente, como aceitamos também, a destruição de Tróia e o fechamento da Escola Eclética de Alexandria. – Secamente, emendando na resposta, Cristiano Ronaldo deu prosseguimento.
- Eu nunca recebi concurso fraterno, meu amigo, nem palavra esclarecedora, sempre fui discreto, na minha. Mas o isolamento trouxe algumas vantagens, dentre elas, por exemplo: não ter ansiedade antecipatória. Para mim os medos da vida são nada, para mim tudo não passa de um peido na tempestade. O lado ruim nisso tudo, poderia dizer, é o fato d’ eu viver nas trevas, encarnação após encarnação. Sou uma alma que desperta e dorme, que desperta e dorme como num sonho que ajuda a digerir mil e uma circunstâncias. Vida após vida fixo a atenção ora num ponto ora noutro, para mim os minutos são eternidades, embora tenham um número.
Cristiano Ronaldo voltou seu olhar sarcástico para o Morro da Chacrinha donde subia fumaça das cozinhas, e apresentou a Bruno um copo cheio de Conhaque cuja borda não conseguia ele tocar com seus lábios trementes de medo, “relaxa, filhão” disse em tom de deboche antes de retomar sua narrativa.
- Houve determinadas épocas em que bebi o café dos existencialistas. Hedonismo, e esse tipo de coisa. Depois provei o absinto dos satanistas positivistas, Aquela era uma galera chapa quente! Com eles aprendi a seduzir, agredir, manipular, o básico, né? A seguir cismei que queria ser jornalista. Entrei pra escola dos escritores luciferinos. Escrevi tanta baboseira, tanta coisa inútil e sem sentido como passar mostarda num pingüim. Por fim inalei o ópio da guerra. Ah, Hitler, aquele maldito caçador de vampiros! Tentei me vingar, quase comendo a Eva Braun, aquela cadelinha do satã, mas isso é outra história. -
Cristiano Ronaldo, bastante satisfeito com sua pessoinha, derramou em torno de si um olhar vaidoso, como se sentisse, mais uma vez, os peitos de Eva Braun vibrando embaixo do corselet; e os ventos de Berchtesgaden trazendo à tona as condições de existência que vivia quando era feliz. Naquele episódio, enquanto estavam deitados no feno cheiroso, lembrou-se ainda do dia, em julho de 1941, em que no oriente, faltava apenas um passo para a perda de Moscou; outra mulher tomada por vingança. Lembrou-se das palavras de Friedrich Paulus, ao violarem a fronteira da Rússia, de como ele brandiu o sabre e gritou; e como que levado pela maré das marcas daquela dor incurável deixou escapar dos lábios a odiosa frase de Paulus:
- Eis-nos nas Estepes da Ásia!
- Como? – Perguntou Bruno, perplexo por aquilo que não fazia sentido, afinal o brado vinha atrelado ao pensamento de Cristiano Ronaldo, em que ele estava desconectado.
- Nada não, deixa pra lá. Na vida é tudo fumo e vento, nada é mais fugaz do que a glória!
Mergulhou suas recordações em nada que tinha a ver com que deveria ser sua preocupação no momento. Mas um sentimento muito complexo adveio daquelas lembranças, como nos Gulags da Sibéria, como daquela Moscou toda convulsa e que seria abandonada. Reteve as palavras e mudou o rumo da prosa.
- Bruno, vc sabe do que eu mais gosto de fazer quando não estou cortando e empilhando pedras?
- Não.
- Pesquisar sobre os homens das cavernas, Menino de Lapedo, dinossauros, esse tipo de coisa.
- Sei. Mas se essa hipótese de vida após a vida está correta pq vc não esqueceu e não superou os fatos ao longo de tantas encarnações?
- Bruno, uma vela não reacende como uma vela nova, mas reacende onde se apagou. - Uma pausa para um gole e Cristiano Ronaldo pergunta.
- Dize-me tu, Bruno, do que te vanglorias?
- Eu? De nada. A como diria Augusto dos Anjos, minha vida não foi nenhum romance
- Pois é Bruno, vc é mesmo medíocre, mas tem uma coisa esquisita.
- O que?
- A sorte nos reuniu de uma maneira estranha.
- Bota estranha nisso!
- Deixa continuar contando minha história, senão me perco e daí é foda encontrar o fio da meada, ainda mais olhando pra essa tua cara de babaca. Bom, vamos lá, depois de buscar Nekhbet, leia-se Eliza, por toda parte, talvez tendo sido ela mesma Eva Braun, finalmente a reencontrei na Espanha. Ai tivemos uma filha. Aquela menina adentrou em planos desconhecidos da minha mentalidade, me mostrou o belo e as coisas belas; há entardeceres em que posso escutar sua voz. Ela foi uma ponte que me levou para além dos problemas e das proibições. Ninguém faz uma ponte se ninguém vai atravessar, não é meu amigo? Ou vc pensa que as pessoas entram e saem das nossas vidas sem que haja um fato gerador? De onde vc acha que vem a teia das nossas relações sociais? Se vc vir uma flecha no ar, não pensará que ela surgiu de um arco? O arco que impulsiona as pessoas é o karma. Mas vc é um débil mental, Bruno, que não vê amplamente o estado de coisas, mas sim seus efeitos, já que, no geral, para vc, tudo são efeitos.
- Onde... Onde está a menina? – Questionou Bruno sequioso de curiosidade, mas aquela pergunta pareceu conter uma armadilha perigosa demais e Cristiano Ronaldo preferiu ser lacônico.
- Numa lápide em Sevilha.
- Como assim?
- Esta morta, meu amigo, dormindo eternamente nas cores do outono. Eu a venero como a uma santa desde então, em virtude de seu fim trágico, mas isso é uma outra história.
Então Cristiano Ronaldo apontou a Parabelum 9mm para a cabeça de Bruno, que assustado, descorou mais ainda. Infelizmente para Cristiano Ronaldo, o bom senso nunca foi mais ágil que o senso de humor e enquanto puxava o gatilho disse, “volta para o mar oferenda!”; e com uma caroçada de Hollow Point no meio das idéias mandou Bruno para o colo do capeta.
Houve diligências por parte da polícia aqui, lá, acolá, nos ermos, nos chapadões, mas o corpo de Bruno jamais foi encontrado o que causou um cenário aterrador a sociedade tijucana. Mas com o tempo os tijucanos deixaram de alardear o fato e apenas voltaram suas atenções para outros assuntos mais polêmicos e chocantes.
Pois é, meus amigos, tomar uma mulher por vingança, se apaixonar, e depois se agarrar a ela como se fosse o último helicóptero de Saigon pode causar terríveis conseqüências, adverte o Ministério da Saúde.
Continuará...
Cordiais saudações
Fabrício Santiago